TV Globo, Fantástico e professores “sem-classe”.

Mais uma vez o programa Fantástico (“Conselho de classe”, TV Globo, 20-11-2011) levou ao ar um novo capítulo da farsa que pretende livrar a cara das professorinhas-santas-abnegadas e demonizar os alunos das escolas públicas brasileiras.

Muitos colaboradores e simpatizantes do Movimento COEP haviam solicitado que fizéssemos uma avaliação sobre o quadro “Conselho de classe” (Programa Fantástico, TV Globo, 13-11-2011).

Já suspeitávamos que seria mais uma farsa produzida por jornalistas preguiçosos, para não dizer mal intencionados. Vide o que foi feito em 2010 (quadro “Turma 1901”).

De qualquer forma, mesmo já tendo feito uma avaliação preliminar sobre o programa apresentado em 13-11-2011, esperamos a divulgação do mais novo “capítulo”, em 20-11-2011.

No quadro apresentado em 13-11-2011, fica evidente que o Fantástico está mais preocupado com o show do que com a realidade. Professores estereotipados: “o exigente”, “a linha dura”, “o hiperativo”, “a mãezona”…

Os dados fundamentais ficam perdidos ao longo do “reality show”: a sala não está super lotada… a escola é de ensino integral (7 horas diárias)… não é apresentada a rotina dos alunos nem da escola… não é divulgada a nota da escola municipal República do Peru na Prova Rio de Janeiro [governo e corporação não prestam contas à sociedade]…

Os fatos graves são ignorados pelos coreógrafos [e não jornalistas] do Fantástico: professor perde o controle da classe… professor grita constantemente com os alunos… professor humilha aluna em rede nacional… aluno fala que é odiado pelo professor… professor fala que a relação com os alunos é de amor e ódio…

Pra não dizer que não falamos da [falta de] pedagogia, lembramos que os coreógrafos do Fantástico esqueceram de dizer que os alunos da “sala especial” não aprenderam porque seus professores também não ensinaram…

Uma curiosidade: o professor “hiperativo” mistura Deus com Darvin, ao sugerir que Deus criou o Australopithecus (macaco do sul), ancestral do Homo Sapiens, a sua imagem e semelhança… O que dirão os professores de religião que infestam as escolas do Rio de Janeiro? Este fato inusitado seria cômico, se não fosse trágico…

Finalmente, para não deixar dúvidas de que o reality show não tem compromisso com a realidade, o Fantástico apresentou uma coreografia onde alega que o professor disse “72 vezes” a palavra “senta”… as cenas mostrarem o professor “exigente” [que ama e odeia seus alunos] com camisas diferentes… seriam dias diferentes??? Mas isso não tem importância… o que importa é o show… e que se dane a realidade.

Professora ou vendedora de perfumes? Programa Fantástico sem classe (TV Globo, 20-11-2011).

Por dever de ofício, resolvemos assistir ao quadro “Conselho de classe” (Fantástico, TV Globo, 20-11-2011).

O programa começa apresentando a professora “linha dura” com cara de sono, dizendo que muitas vezes não tem vontade de ir à escola…

Mas, inadvertidamente, os coreógrafos [não são jornalistas] do Fantástico cometem um ato falho: dizem que a professora “linha dura” recebe R$ 1.340,00 de salário… mas é por trabalhar tão somente 16h (dezesseis horas) por semana… e que faz “bico” como vendedora de perfumes…
Será que a professora-vendedora-de-prefumes trabalha com a empresa patrocinadora deste reality show?

Para uma mãe ou pai de família fica difícil entender como é que uma pessoa consegue um emprego onde trabalha apenas 16h por semana, pouco mais de 3h por dia, quando a maioria da população trabalha 44h (quarenta e quatro horas por semana (8h por dia e mais 4h aos sábados) para ganhar menos de R$ 1.090 (menos de 2 salários mínimos)…

Se a professora-vendedora-de-perfumes trabalha pouco mais de 3h na escola, significa que o seu cansaço deve estar relacionado a outras atividades…

Faltou os coreógrafos [não são jornalistas] do Fantástico informarem qual é a atividade principal da professora “linha dura”: vender aulas por 3h ou vender perfumes pelo resto do dia?

Talvez o Fantástico esteja passando a mensagem sublminar de que é mais negócio vender perfumes do que vender aulas…

Para não dizer que não falamos sobre a [falta de] pedagogia, identificamos o completo equívoco dos professores e da direção escolar no caso de um aluno com fortes indícios de hiperatividade. Além de não promoverem atividades diferenciadas, nem esporte e nem cultura, ainda levam o aluno a um tribunal de exceção no qual a diretora acusa o aluno da pratica de um crime (sic): copiar as respostas de um colega…

Vale destacar que a “sala especial” é também para recuperar os alunos que não foram ensinados pela professora “linha dura” de língua portuguesa, aquela que gasta mais tempo vendendo perfumes do que vendendo aulas.

Por ultimo, parece-nos que os parajornalistas do Fantástico estão sofrendo da síndrome de GLEE, uma série norte-americana onde os problemas de uma escola pública sempre são resolvidos com canto, música e dança…sugerimos ao Fantástico que contrate um coreógrafo de verdade, a exemplo do Carlinhos de Jesus, para “coreografar” as professorinhas-santa-abnegadas e seus funks, evitando os espetáculos deprimentes ao final de cada capítulo deste reality show.

P.S.: nossos pêsames ao Carlinhos de Jesus e familiares pela morte do seu filho Carlos Eduardo Mendes de Jesus no último sábado.

São Paulo, 20 de novembro de 2011.

Mauro Alves da Silva
Presidente do Grêmio SER Sudeste – Promoção da Cidadania e Defesa do Consumidor
http://gremiosudeste.wordpress.com/
Coordenador do Movimento COEP – Comunidade de Olho na Escola Pública.
http://movimentocoep.ning.com/

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5 Respostas para “TV Globo, Fantástico e professores “sem-classe”.

  1. Infeliz a correlação que o site esta fazendo dos professores, antes de pronuciar tais barbáries, procure conhecer os fatos:
    1- Professor 16 hs/sem – e + Dupla
    2- Toda Filmagem ou Fotografia nas escolas da rede tem de ter autorização prévia dos responsáveis.
    3- Acusação da Diretora de que a mesma acusou o aluno, enquanto a mesma estava mostrando o quanto era erradfo a postura do mesmo em oferecer algo para ter permissão.

    escreve o que quer mas não apurou os fatos e diz que o quadro que é sensacionalista

    • José,
      1) O progrma foi bem específico ao dizer que a professora trabalha 16 horas por semana na escola… os alunos não têm culpa pelo estresse que a professora sofre fora da escola e em outros empregos…
      2) as crianças e adolescentes são sujeitos de direitos. Ninguém pode “autorizar” a divulgação de imagens nas quais as crianças são xconstrangidas ou humilhadas ou ridicularizadas. Nem conselho tutelar, nem escola, nem os pais, nem promotor, nem juiz… nem o Papa pode dar autorização para estas ilegalidades.
      3) a diretora falo com todas as letras a palavra “crime”! além disso, a reprienda fo divulgada pubnlicamente. Isto é um ecvidente caso de colocar a criança em situação vexatória.

      Este “Reality show” está sendo denunciado às diversas autoridades públicas.

      • Concordo com a letra a da sua resposta, mas discordo de alguns outros pontos. Não sou a favor do programa, mas acho muito confortável a crítica direta à postura dos professores. Todo profissional tem dias melhores e piores. Todo aluno tem direitos, mas também deveres. A maioria dos alunos que estão na sala especial, não está lá por incapacidade. Está lá porque, ao longo dos seus anos na escola não foi acompanhado corretamente pela família, professor, diretor, secretários, prefeitos, uma política educacional, etc. O professor fica na linha de frente, com 48 alunos numa sala, e tem aluno que passa o ano todo sem fazer atividade alguma: o professor fala com ele, encaminha à direção, os pais são chamados (muitos nem sequer aparecem), há um psicólogo que vem à escola de mês em mês. Então o aluno retorna para a sala e tudo continua na mesma. É confortável jogar a culpa no professor, mas se ele tem um aluno assim, ele também tem outros 40 e tantos para cuidar. Nesse caso do programa, soube que as autorizações foram distribuídas e assinadas e não havia qualquer direito de crítica ao produto final exibido. Acredito que devem existir milhares de momentos maravilhosos, de carinho e interação professor aluno, que não foram mostrados.

      • nadia,
        Se você ssitiu ao progrma, voc~e pode consttar que a sala de aula não tem nem 30 alunos…
        Outro detahe: esta escola é de tempo integral. Ou seja: os alunos deveriam fazer exercícios na própria escola…
        Por último: a atuação dos professores e da diretora estão colocando os lunos em situação vexatória. isto é crime.

  2. professora cristiane costa santiago

    Quando penso que a educação vai se tornar prioridade aparece um “Conselho de Classe” em rede nacional no fantastico, e enquanto a educação não deixar de ser mercadoria mande in china, com certeza não haverá educação de qualidade nunca, ninguem merece tanta desvalorização de profissionais da educação e professores tão desmotivados. Acorda! Educação é prioridade aqui e em qualquer lugar.

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