O incômodo candidato ao ‘Oscar’, por Dorrit Harazim. Estupros nas Forças Armadas dos EUA.

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O incômodo candidato ao ‘Oscar’, por Dorrit Harazim

Dorrit Harazim, O Globo

Não, não estamos falando do polêmico “A hora mais escura” (“Zero Dark Thirty”) da diretora Kathryn Bigelow, sobre a operação da CIA que culminou na invasão do Paquistão, captura e assassinato de Osama bin Laden.

Tampouco se trata do exuberante e violento “Django livre”, de Quentin Tarantino, que levou a América politicamente correta ao ridículo, ao denunciar que o epíteto nigger (crioulo), hoje tabu, povoa o filme de ponta a ponta.

Houve quem contabilizasse a heresia — foram 109 vezes — como se o fazendeiro escravocrata pré-abolição do filme devesse chamar sua propriedade humana de “afrodescendentes”.

O tema, aqui, é um dos cinco concorrentes ao Oscar de Melhor Documentário, a ser anunciado no festão do próximo dia 24 de fevereiro. “The Invisible War” (“A guerra Invisível”, em tradução literal), com roteiro e direção de Kirby Dick, tem narrativa convencional, linguagem cinematográfica pedestre e fotografia banal. Ainda assim, provocou vários estrondos nas Forças Armadas dos Estados Unidos.

Pela primeira vez a prática de abusos sexuais nas fileiras militares americanas é exposta em toda sua extensão.

Os números absolutos são de estarrecer: segundo dados referentes a dois anos atrás, 19 mil mulheres e homens das três armas foram sexualmente atacados por companheiros de farda enquanto serviam. Apenas 244 acusados foram condenados.

Pior: o Departamento de Defesa americano avalia que 86% dos abusos permanecem não notificados. Hoje, uma mulher alistada nas Forças Armadas dos Estados Unidos tem mais chances de ser atacada por um colega do que ferida por fogo inimigo.

Com depoimentos na primeira pessoa e um arsenal de dados desenterrados junto às próprias autoridades militares, o filme premiado no Sundance Festival de 2012 expõe a cultura do estupro e do assédio até mesmo no prestigioso Marine Barracks da capital do país, sede dos Fuzileiros Navais desde 1801.

O caso da base aérea de Lackland, em San Antonio, Texas, também abordado no filme, envolve 51 instrutores que abusaram de 52 recrutas, muitas delas ainda adolescentes recém-alistadas e oriundas de famílias de militares.

O depoimento do pai de uma delas é acachapante. Envergando uniforme, ele narra o telefonema da filha que acabara de ser estuprada e perdera a virgindade.

Outra jovem de família militar viu sua denúncia se arrastar por um ano. Encerrado o inquérito, o comandante da guarnição concluiu que o acusado de estupro, embora não tivesse tido “comportamento de cavalheiro”, não merecia ser condenado — recebera a menção honrosa de “Melhor Desempenho Militar” da unidade, naquele ano.

Por ordem do chefe do Estado-Maior da Força Aérea, general Marc Welsh III, todo o comando da base de Lackland teve de assistir ao documentário em novembro passado.

“The Invisible War” também foi exibido para membros do Congresso e nas convenções nacionais dos partidos Democrata e Republicano. O próprio ministro da Defesa, Leon Panetta, não se esquivou e assistiu a uma exibição dirigida a vários integrantes do alto escalão militar.

Fez bem, visto que o comportamento predatório está longe de se manter confinado aos alojamentos da soldadesca. O exemplo vem de cima.

Dos 255 comandantes militares americanos exonerados por má conduta desde 2005, 78 foram defenestrados por ofensas relacionadas a sexo. Alcoolismo e uso de drogas derrubaram outros 27. O quadro no escalão mais alto confirma a regra: dos 18 generais e almirantes exonerados, 10 cometeram crimes sexuais.

Na semana passada, foi apresentada denúncia contra o general Jeffrey Sinclair no tribunal militar de Fort Bragg, Carolina do Norte.

Exonerado de suas funções de comando da 82ª Divisão Aerotransportada no Afeganistão, Sinclair é acusado de sodomia, adultério, pornografia e má conduta sexual contra cinco militares que serviram sob suas ordens.

Submetido à Corte Marcial dentro de três meses, se condenado poderá pegar prisão perpétua.

Envolvidos em guerra ininterrupta há mais de dez anos, os Estados Unidos começam a sentir o esgarçamento moral e físico de seu tecido militar. E foi em meio a este pano de fundo que o Pentágono e o presidente reempossado Barack Obama anunciaram, esta semana, o fim da proibição formal que vetava funções de combate a mulheres nas Forças Armadas.

Decisão histórica, embora tardia. Desde 1948 o general cinco estrelas Dwight Eisenhower já pregava a equiparação.

“A meu ver”, testemunhou o comandante da vitória aliada na II Guerra durante uma audiência no Congresso, “as mulheres da reserva devem ser integradas ao exército regular. Precisamos delas”. E precisam mesmo, pois já representam 15% da força total uniformizada.

No Canadá, mulheres integram unidades de combate há quase um quarto de século, e mesmo nos Estados Unidos elas frequentam as estatísticas de guerra, apenas sem qualquer reconhecimento formal: até agora, 140 já perderam a vida em combate e mais de 800 estão entre os feridos de Iraque e Afeganistão.

Atuam como oficiais de inteligência, pilotos de helicópteros Apache, policiais militares, médicas de campanha, motoristas de blindados.

No entanto, por estarem formalmente em missões “de apoio” e não de combate, permaneciam excluídas das promoções aos mais altos escalões da carreira.

A medida agora anunciada por Obama não precisa de aprovação do Congresso. Em caso de discordância, os parlamentares teriam de encaminhar nova lei proibindo a mudança, o que tem poucas chances de ocorrer.

Embutido na medida, foi dado o recado para quem praticava a guerra que deixou de ser invisível: a condescendência militar com a cultura do estupro tem prazo de validade.

 

Dorrit Harazim é jornalista

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