Folha de S. Paulo e Cotargo Calligaris: apologia à tortura?

Parece que o jornal Folha de S. Paulo tem dificuldades em se posicionar claramente contra a tortura. Já vimos isso no caso da “ditabranda” e no caso do assassinato do menino “João Hélio”.
Agora, a Folha publica o artigo do doutor-psicanalista Contardo Calligaris (“Para que serve a tortura”, Folha de S. Paulo – 21/02-2013), aproveitando o gancho do filme “A hora mais escura” ( ), o doutor-psicanalista conclui que a tortura não funciona para “confissões”, mas “Quanto ao uso da tortura para obter informações sobre cúmplices, paradeiros escondidos, complôs etc., vamos ter que encontrar razões puramente morais para bani-la, pois, constatação desagradável, ela funciona” (sic).
O doutor-psicanalista vai mais além: “O saco plástico do capitão Nascimento funciona. Os “interrogatórios” brutais do agente Jack Bauer, na série “24 Horas”, funcionam. E, de fato, como lembra “A Hora Mais Escura”, de Kathryn Bigelow, que acaba de estrear, o afogamento forçado e repetido de suspeitos detidos em Guantánamo forneceu as informações que permitiram localizar e executar Osama bin Laden” (sic).

O sábio doutor-psicanalista desconhece que a caçada e assassinato de Bin Laden foi precedida da invasão do Iraque e da matança de cerca de 1 milhão de iraquianos? Ele ignora que a “execução e ocultação do cadáver” livrou os EUA de explicar ao mundo as ligações perigosas com o seu antigo parceiro no Afeganistão?
Quer dizer que mentir sobre “armas químicas” como desculpa para invadir e matar mais de 1 milhão de pessoas e milhares de pessoas torturadas servem de “justificativa” para o uso da tortura? E ainda precisamos “encontrar razões puramente morais para bani-la” (sic)?

Para piorar ainda mais, o doutor-psicanalista mistura as bolas: confunde um crime contra a humanidade (a tortura), crime típico de Estado e de seus agentes públicos, com atos de desespero de um pai ou uma mãe que tenha um filho seqüestrado. Vejam o falso dilema apresentado pelo doutor-psicanalista: “Uma criança foi sequestrada e está encarcerada em um lugar onde ela tem ar para respirar por um tempo limitado. Você prendeu o sequestrador, o qual não diz onde está a criança sequestrada. Infelizmente, não existe (ainda) soro da verdade que funcione. A tortura poderia levá-lo a falar. Você faz o que?” (sic).
Como é que o doutor-psicanalista tem a desfaçatez de usar uma falácia como justificativa para a tortura? Não se pode ter a certeza da culpa sem um julgamento imparcial realizado por um tribunal com juízes que não tenham amizades ou inimizades com o réu e nem com a vítima. Não é rara as vezes em que o sistema judiciário falha vergonhosamente, atribuindo culpas a inocentes.

Já que o ilustre doutor-psicanalista reconhece a eficiência da tortura e não vê nem mesmo justificativas morais para inibi-las, será que ele também acredita ser justificável torturar psicanalistas para que entreguem os segredos de seus pacientes quando as autoridades “souberem” que os pacientes do psicanalista são “culpados”? Será que o doutor-psicanalista acredita na eficiência da tortura contra jornalista para que eles entreguem suas fontes “criminosas”? Será que o doutor-psicanalista acredita na eficiência da tortura para que os advogados entreguem seus clientes “criminosos”? Será que o doutor psicanalista acredita na eficiência da tortura contra os assessores dos políticos para que entreguem seus “chefes corruptos”? Será que o doutor psicanalista acredita na eficiência da tortura contra os cidadãos para que se entreguem uns aos outros?

O eminente doutor-psicanalista deveria saber que a maior “eficiência” da tortura é intimidar a população na vã tentativa de impedi-la de se revoltar contra a tirania de seus governantes. Ele mesmo cita o exemplo da “Santa Inquisição” promovida pela Igreja Católica por ordens diretas do Papa, o Bispo de Roma. Aliás, seria interessante o doutor-psicanalista-italiano falar um pouco sobre a eficiência de se torturar os assessores do ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi para que esses assessores entregassem as eventuais atividades criminosas deste chefão italiano que tem interferência até mesmo na eleição do Papa…

Nestes tempos de Comissão da Verdade seria interessante revisitar os arquivos de jornais e demais órgãos da imprensa e constatar, nos dias atuais, até que ponto estes órgãos de imprensa estão comprometidos com a Democracia, com o Estado Democrático de Direito e até mesmo com a Convenção contra a Tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, Desumanos ou Degradantes

São Paulo, 24 de fevereiro de 2013.
Mauro Alves da Silva
Presidente do Grêmio SER Sudeste – Promoção da Cidadania e Defesa do consumidor
http://gremiosudeste.wordpress.com/

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