GUEST POST: ABUSO NUM ÔNIBUS INTERMUNICIPAL

terça-feira, 2 de abril de 2013

GUEST POST: ABUSO NUM ÔNIBUS INTERMUNICIPAL

 

Quando recebi este email da M, pensei no início do blog, e de como aprendi e continuo aprendendo coisas novas todos os dias. Fiquei chocada ao descobrir que algumas leitoras já foram abusadas enquanto dormiam, em viagens de ônibus interestaduais e intermunicipais! 
Não sabia que isso acontecia.
Também lembrei de um post que escrevi ao ler o excelente livro da Susan Brownmiller sobre estupro. Ela descreve como era o atendimento às vítimas em Nova York nos anos 1970, antes da criação das Delegacias da Mulher. São Paulo 2013 pelo jeito tem muito em comum com NY 1973…
Leiam o relato da M. e revoltem-se.

Decidi compartilhar essa história para que outras mulheres vejam e saibam se defender caso aconteça algo semelhante. É uma história de desrespeito das autoridades, uma história que reitera os abusos contra as mulheres.
Estudo em uma cidade diferente da cidade em que nasci, e costumo viajar de ônibus nos fins de semana para ver a família. O ônibus faz a viagem durante a madrugada, de domingo para segunda, dentro do estado de São Paulo. Nesse fim de semana específico encontrei uma colega, que chamarei de Vanessa, de escola, que vejo apenas de vez em quando nas viagens.

Quando o ônibus parou no posto de estrada, Vanessa me acordou e encontrava-se visivelmente nervosa. Perguntei o que tinha ocorrido. Ela me relatou, depois de um tempo, que estava dormindo quando acordou assustada, pois o homem que sentou do lado dela — um homem fardado, um bombeiro! — estava passando a mão nela, e com o pênis pra fora, se masturbando. Ela tentou gritar, mas conseguiu apenas falar baixinho pra ele sair dali. Ou seja, ninguém no ônibus ouviu ou viu qualquer coisa.
Percebi que ela estava abalada e muito envergonhada em me contar a história, e perguntei se ela preferia esperar chegarmos ao destino para fazer o boletim de ocorrência, ou se desejava fazê-lo imediatamente. Ela quis resolver tudo rápido.
Mas esse não foi nem o começo dos abusos aos quais ela foi submetida.

Informamos o motorista, que parou num posto rodoviário da Polícia Militar a cinco minutos dali. Descemos do ônibus e os PMs, visivelmente irritados por ter que resolver problemas de “mulherzinha”, pediram que ela relatasse o que aconteceu. Numa sala com seis homens fardados, ela mal conseguiu falar que tinha ocorrido um abuso.
Os policiais foram buscar o bombeiro dentro do ônibus, e ao chegarem com ele no posto rodoviário, disseram o seguinte: “Agora, Vanessa, fale pra ele o que você falou pra gente” (sério mesmo? confrontar uma vítima com um agressor?). Ela não conseguiu falar nada. O bombeiro alegou que a menina acordou sozinha e pediu para que ele saísse do lado dela. Porque é super comum as pessoas mandarem as outras saírem do seu lado sem nenhum motivo!
Os PMs então resolveram encaminhar o caso para a delegacia, e fui com um deles buscar nossas malas, para que o ônibus pudesse seguir viagem com os outros passageiros.

Quando estava atravessando a rodovia, o querido policial me disse: “Ela já mudou a versão, né?” Ao que eu respondi: “É porque toda vítima consegue acusar facilmente na frente do agressor”.
Quando retornei ao posto qual não foi minha surpresa constatar que Vanessa continuava na recepção, enquanto o bombeiro estava numa sala separada, com café e água, dando risada e conversando com os policiais.
Solicitei imediatamente que o caso fosse encaminhado para uma delegacia da mulher. O policial me informou que essas delegacias não ficavam abertas de madrugada. Pedi então que o caso fosse encaminhado a uma delegacia com delegada mulher, ou, pelo menos, onde houvesse policiais mulheres de plantão, para acompanhar o caso, no que fui solenemente ignorada.

Percebi que os policiais já conheciam o delegado da DP para onde encaminharam a gente, tudo para resolver o caso o mais rápido possível e se livrarem daquelas menininhas pentelhas.
Quando chegamos na delegacia, após tomar os depoimentos, o delegado, muito informado sobre os crimes do Código Penal, decidiu enquadrar o crime como uma contravenção penal de “perturbação ao sossego”. Quer dizer… sério? O que o bombeiro estava fazendo no ônibus, cantando Michel Teló alto demais?
Passei a discutir com o delegado, mas como a minha amiga estava perturbada, e sabendo que quem decide como enquadrar o crime é o Ministério Público, registrei que não concordava no meu depoimento.

Terminados esses procedimentos, foram nos levar para o posto de estrada, para que pudéssemos pegar outro ônibus (da mesma empresa) para finalmente chegar ao nosso destino. Queriam colocar nós duas e o bombeiro no mesmo carro!
Finalmente perdi o controle, e falei — na verdade gritei — que iria denunciá-los na Corregedoria, que denunciaria no MP da Justiça Militar, que iria chamar a imprensa, que aquilo tudo era um absurdo!
Depois disso, o policial teve a cara de pau de me falar pra parar com o chilique, que eles levariam a gente em viaturas diferentes. Falei para levarem o bombeiro primeiro, que não queria que ele soubesse nosso trajeto ou qualquer outra coisa.

Saldo final: Vanessa não quer fazer nenhuma denúncia, pois não tem prova, e não quer se expor. O bombeiro foi apenas transferido de cidade após sua superior (sim, uma mulher!) saber do ocorrido.
Dei uma pesquisada e descobri que casos de abusos em ônibus intermunicipais são muito comuns, e nunca são divulgados pela mídia. Por isso escrevi para você, porque você pode começar algum tipo de divulgação e alertar as mulheres desses perigos! E também para demonstrar o descaso das autoridades com casos como esse.

 
Posted by lola aronovich at 10:38 87 fala gente fala
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