“Um estadista não emerge da chama das ruas, forma-se ao longo da vida”

Do Valor

“Um estadista não emerge da chama das ruas, forma-se ao longo da vida”

Luiz Eduardo Soares: “O centro nevrálgico da criminalidade violenta no Rio de Janeiro é a degradação de nossas polícias”

Com os olhos do mundo voltados para o Rio de Janeiro, quando a cidade é palco de eventos mundiais esportivos e religiosos, os manifestantes que tomam as ruas parecem conseguir mais alcance para seus gritos. Acompanhado por câmeras e repórteres de diversos países, o cenário da cidade, com semelhanças ao quadro de outras do país, pode ter se tornado mais permanente e talvez mais violento. Assim avalia o cientista político Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de Segurança (2003) e ex-coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do Rio (1999-2000), para quem o Brasil vivencia o colapso da representação política.

Um dos maiores especialistas do país em violência urbana, Soares lamenta que a reforma da polícia não seja pauta da sociedade. E diz que o centro da violência no Rio é a degradação das polícias. As dez mortes no Complexo da Maré e o desaparecimento do pedreiro Amarildo, na Rocinha, não suscitaram entrevista coletiva com a cúpula da segurança do Estado, como a convocada às pressas no dia seguinte às cenas de quebra-quebra no Leblon, bairro de elite onde mora o governador Sérgio Cabral (PMDB), lembra. “Escândalo é o vandalismo de manifestantes. O genocídio é parte da paisagem”, diz.

Para Soares, centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas para tornarem-se protagonistas da história. “A massa rompeu expectativas e a tradição de apatia, e inventou um movimento que será, por suas lições e seus efeitos, o verdadeiro legado às gerações futuras”.

A seguir, os principais trechos da entrevista ao Valor:

Valor: Quem são os manifestantes que vão as ruas no Rio? São “os mesmos” em outras cidades?

Luiz Eduardo Soares: A resposta exigiria uma pesquisa empírica que ainda está por ser feita, seja no Rio, seja em outras cidades. Seria necessário também evitar tratar os protestos como um bloco uniforme: no Rio, houve uma mobilização com mais de 300 mil participantes – eu diria: muito mais do que isso. Houve outras com duas ou três mil pessoas. São distintas na escala e, provavelmente, na composição. De todo modo, tudo leva a crer que a marca das grandes manifestações foi a diversidade, seja de pautas, seja de recursos expressivos, seja de origens sociais. A supremacia de jovens parece constituir outra característica constante. Estou inclinado a crer que não houve diferenças significativas entre as grandes manifestações que ocorreram no Rio e em outras cidades.

Valor: O que os manifestantes do Rio querem?

Soares: Se eu lhe respondesse estaria atestando o meu mais absoluto alheamento da experiência coletiva em curso nas ruas. O protesto parece recusar mediadores ou tradutores, o que nos remete para sua reiterada dramatização (mais do que declaração verbal): o rei está nu, o instituto da representação ruiu, a sociedade brasileira está vivenciando o colapso da representação política; e talvez isso valha também para nós, cientistas sociais e acadêmicos com pretensões de produzir diagnósticos e soluções, em aliança com a tecnocracia autoritária onipresente no Estado brasileiro. Os protestos são, nesse sentido, a performance que assinala, vocaliza, enuncia, proclama e, sobretudo, realiza em praça pública, dramaturgicamente, a ruptura com a representação política confinada em partidos e submetida aos jogos hipócritas e despudorados, sob títulos elegantes como governabilidade. A agenda é múltipla e prescinde de intérpretes, mas o modo como tem sido construída nas ruas, com base no novo protagonismo individualizado e dos pequenos coletivos, aponta para o desejo de participação.

Valor: Os movimentos no Rio ganharam proporção maior?

Soares: Não diria necessariamente maior proporção, talvez maior visibilidade, porque o crivo seletivo da mídia focaliza o Rio, por ser o palco dos grandes eventos esportivos e religiosos. O extraordinário é que, ao tomar as ruas, a sociedade brasileira apropriou-se do título que lhe custara bilhões de reais e, por decisões autocráticas, a excluíra: o grande evento. Centenas de milhares de pessoas deslocaram o campo de futebol para o meio da rua e vestiram a camisa do país, assumindo um protagonismo como nunca antes na história do Brasil. O interesse público tinha sido traído pela tecnocracia, associada a empreiteiras e subserviente à tutela arrogante da Fifa. A sociedade revogou expectativas, rompeu a tradição de apatia e inventou um movimento que será, por suas lições e seus efeitos, o verdadeiro legado às futuras gerações.

“Lojas saqueadas no Leblon merecem mais destaque que as milhares de execuções de jovens pobres e negros”

Valor: Por que a crítica à polícia ganhou destaque no Rio? A reforma da polícia é pauta aqui?

Soares: Gostaria de responder afirmativamente, mas creio que seria apenas um autoengano. Lamento ser obrigado a dizer que não. Não vejo a sociedade carioca, em seu conjunto ou como tendência predominante, mostrar-se sensível para a necessidade imperiosa e urgente de uma refundação das polícias, nem mesmo de uma reforma. Lojas saqueadas no Leblon, fato sem dúvida lamentável, merecem mais destaque do que as milhares de execuções extrajudiciais de jovens pobres e negros, perpetradas pelas polícias nas favelas. Entre 2003 e 2012, as ações policiais provocaram, no Estado do Rio, 9.231 mortes de civis. O desaparecimento de Amarildo, na Rocinha, levado para depor na sede da UPP e nunca mais localizado, não suscitou entrevista coletiva com a cúpula das polícias e o secretário de Segurança, nem as dez mortes na Maré. A pauta da mídia ajuda a formar e ao mesmo tempo expressa pontos de vista que acabam por se impor, quando se trata de definir a agenda das políticas públicas. Por isso, sou pessimista: acho que o que vai acabar predominando é apenas o raso e velho discurso da “falta de preparo dos policiais”. Estamos longe ainda de reconhecer que, apesar de numerosos contingentes de policiais honrados e competentes, o centro nevrálgico da criminalidade violenta no Rio é a degradação de nossas polícias e que, portanto, antes de qualquer ação para enfrentar o crime é indispensável transformar as corporações radicalmente. Sem as polícias como instrumentos legais, rigorosamente submetidas aos mandamentos constitucionais e a controle externo, não avançaremos e colocaremos em risco o futuro dos bons projetos como as UPPs. No Rio, as desigualdades são muito profundas e enraizadas, a tal ponto que a morte dos jovens negros provocada pelo braço do Estado é naturalizada. Escândalo é o vandalismo de manifestantes. O genocídio é parte da paisagem.

Valor: A principal pauta é a polícia ou a oposição ao governador?

Soares: A pauta é muito diversificada como eu disse. As pessoas participam, não apenas demandam o direito de participar. Mas é claro que, equilibrando-se sobre um fio, esticando a corda, o movimento se arrisca a virar o jogo político em favor do governador e de suas forças policiais. É nisso que têm apostado o governador e o comando da PM, quando, por exemplo, no Leblon, por astúcia maquiavélica, deixaram as ruas entregues à babel dos manifestantes. Essa babel era composta por uma explosiva mistura dos seguintes ingredientes: uma boa dose de ingenuidade e inexperiência; falta de acordo interno entre manifestantes que estabelecesse limites consensuais; ação de ativistas radicais, inspirados na velha teoria simplista de que ao aumento da força destrutiva empregada pelos ativistas corresponde o enfraquecimento político dos adversários; intervenção de provocadores, como policiais e outros agentes infiltrados; e a ajuda luxuosa de alguns aproveitadores, que visavam um “ganho” individual e não estavam ali por nenhuma razão política. Qual a diferença entre a postura sustentável de um estadista, voltada para fins estratégicos superiores, e a política de alta emissão de carbono do governador Cabral, intensiva em gás, bombas, cassetetes e manobras estritamente táticas? O estadista extrairia das manifestações uma agenda o mais próxima possível do espírito das ruas e de sua intensidade. Um governador com a estatura de estadista ousaria traduzir esses temas em uma ousada agenda de reformas para o país – que ele levaria a Brasília – iniciando, aqui e agora, no Estado do Rio, o que fosse legalmente viável. E haveria muito a fazer no interior dos marcos legais vigentes, antes que o Congresso Nacional promovesse mudanças de fôlego. Entretanto, lamentavelmente, qual foi a atitude do governador Cabral? Defensiva. Se os protestos dirigiam-se a ele, nominalmente, ele reagiu como um adolescente insultado, acuado, e buscou, sorrateiramente, montar ciladas para a ingenuidade indisciplinada do movimento. Além disso, tendo sido hostilizado nas ruas, respondeu na mesma moeda como faz um indivíduo inseguro, um cidadão imaturo ou um torcedor de futebol, mas como jamais faria um estadista. A mesma moeda dos cânticos adolescentes contra Cabral é o canto de guerra do governador, que joga a pedra de volta na vidraça alheia, acusando adversários políticos e denunciando o caráter, imaginem só, “político” das manifestações. Quem jamais pensou que o caráter fosse religioso ou esportivo? É de política que se trata do começo ao fim e de sua ressignificação. Patética a reação personalizada e defensiva do governador, que apenas reforça seu lugar no alvo dos protestos. Entretanto, é bom que se diga, um estadista não emerge da chama das ruas, como suco instantâneo. Forma-se ao longo da vida. Quem viaja de helicóptero da Lagoa a Laranjeiras no Estado mais desigual do país não tinha mesmo a compreensão e a sensibilidade típicas do estadista.

Valor: A polícia só sabe usar a violência ou cumpre ordens?

Soares: A PM mimetizou a postura de seu chefe supremo, o governador. Foi defensiva, em vez de ser profissional. Reagiu como se os seus membros estivessem sendo injuriados pessoalmente. Adotou o modelo das torcidas organizadas que reagem a hostilidades com hostilidades; se eles podem, eu posso etc. O discurso comovido do comandante geral da PM [coronel Erir Ribeiro da Costa] foi inacreditável para quem sabe distinguir a suscetibilidade personalista do ofício que corresponde a um mandato constitucional ou do papel que equivale a uma responsabilidade pública. Se o comando psicologiza e evoca o moral ofendido da tropa, é fácil deduzir o moral da tropa nas ruas, transposto para a prática. Por isso, os sinais da vingança estampados no sorriso de escárnio que testemunhei em ataques arbitrários na Lapa de policiais a transeuntes que apenas caminhavam de volta para casa, depois de uma das manifestações. Em vez de aproveitar a energia desprendida para ajudar a reinventar as práticas políticas no país, infundindo renovada credibilidade no mundo político, o governador zangou-se e tentou jogar a opinião pública contra o movimento, preocupado apenas em contabilizar seu futuro desgaste eleitoral e os eventuais danos sobre o projeto de poder de seu grupo político.

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