Uma entrevista com Bruno Torturra, da Mídia Ninja

bruno torturra2 Uma entrevista com Bruno Torturra, da Mídia Ninja

Desde as manifestações de junho, a Mídia Ninja tem aparecido cada vez mais. É um coletivo jornalístico, que funciona de maneira diferente das redações tradicionais, e tem transmitido em vídeo, direto do meio dos protestos. Mereceu citações em órgãos internacionais, ganhou fãs, divide opiniões. A equipe tem muitos integrantes, mas a face mais conhecida certamente é a de Bruno Torturra, jornalista com longa passagem pela revista Trip. No dia 25 de julho, mandei este email para Bruno:

“Bruno,

negócio seguinte: tem muita gente batendo palma acriticamente para a Mídia Ninja, tem muita gente descendo o cacete.
Eu ia escrever um post… mas concluí que tem muita desinformação rolando, principalmente nos últimos dias.
E eu mesmo não sei quase nada de concreto sobre a Mídia Ninja. Por isso, prefiro dar a voz a quem criou a bagaça: você.
Prefiro te propôr uma entrevista, que contém perguntas, digamos, provocativas.
As perguntas são essas abaixo, publico tuas respostas. Edito se estiver longuíssimo, ou fora dos padrões do R7, e só.
Se quiseres sugerir alguma outra pergunta que gostarias de responder, fique à vontade. Não terá opinião nenhuma minha.
O título será: Uma conversa com Bruno Torturra, idealizador da Mídia Ninja.
Naturalmente, posso resolver fazer um post sobre a MN no futuro, mas não está nos planos.
Espero que você veja isso como uma oportunidade de esclarecer as pessoas sobre a MN.
Abraço!”

Bruno respondeu logo concordando. Só conseguiu responder hoje, pedindo perdões pelo atraso. Neste meio-tempo, outros artigos foram publicados sobre o Mídia Ninja, inclusive na Folha e no Valor. Nenhum respondeu a maior parte das minhas perguntas. Elas continuam valendo, e as respostas a elas estão abaixo.
Uma observação: no mais recente perfil de Bruno que encontrei na internet, ele diz que é um dos roteiristas do programa Esquenta, da TV Globo. Como explica abaixo, esta informação está defasada.

AF – A Mídia Ninja é uma empresa? Será no futuro? Tem fins lucrativos?
BT – Não é e nem será uma empresa. A ideia é nos tornarmos uma fundação, instituto… a figura jurídica não sabemos ainda, mas não terá fins lucrativos como uma empresa convencional de comunicação.
AF – Qual é o orçamento da Mídia Ninja?

BT – Não sei responder. Não fizemos essa conta, nem acho uma conta realista de ser feita nesse ponto, já que as despesas costumam ser pagas de acordo com a situação, colaborativamente, ou com alguma saída não monetária.
AF – Quantas pessoas têm a equipe? O que elas fazem? São contratadas? Recebem salário?

BT – A primeira pergunta também é difícil de responder, já que temos dezenas de pessoas colaborando em diferentes níveis de envolvimento. Um núcleo pequeno e crescente, de umas 15 pessoas, que trabalha em dedicação integral ao projeto. Outros estão bem próximos, colaborando com frequência, mas que ainda não estão disponíveis o dia todo. E há um número maior de pessoas que colaboraram vez ou outra, enviaram uma foto, deram uma pauta, emprestaram um equipamento, arriscaram uma transmissão. O mais importante é que temos mais de 1500 inscrições, de todos os estados do Brasil, mais de 150 cidades, de gente querendo se envolver no projeto. Com as mais diferentes propostas e expectativas.
O que elas fazem? Não há cargos por enquanto. Nem sabemos se haverá. As funções costumam ser definidas organicamente, de acordo com a situação e a demanda da hora. Desde dar uma carona para a equipe, até dar plantão ao vivo em uma delegacia, ficar em casa dando suporte de informação para quem está na rua… Ninguém é contratado nem recebe salrário. Nem há como nesse ponto. Como disse, não somos uma empresa.
AF – Existem planos para a Mídia Ninja gerar receitas no futuro? Quais são eles?

BT – Sim. No futuro bem próximo. Temos pensado em quatro diferentes modelos simultâneos de buscar financiamento para a Mídia Ninja. O primeiro é um crowdfunding inicial, para equipar melhor a MN, e bancar uma estrutura melhor de estúdios, e nosso site. Outro é, em seguida, lançar um sistema de assinatura mensal, de baixo valor, para gerar uma receita estável e previsível que viabilize os custos do dia-a-dia da MN, produção de reportagens, manutenção de equipamentos e, possivelmente, começar a gerar alguma receita para os que se dedicam integralmente ao projeto.
O terceiro são contas para doações para reportagens e temas específicos. Por exemplo: montar um time de 3 ou 4 pessoas, que pretendem reportar sobre questões indígenas no Mato Grosso, outra dupla dedicada a cobrir somente prefeitura de São Paulo, outro time quer investigar transportes… cada um terá um orçamento, cachês inclusos, específico. É uma forma não só de viabilizar jornalismo investigativo, mas engajar mais o público na produção de matérias.
O quarto é um sistema de microdoações, R$1, R$2… para peças específicas. Um texto, uma foto, um vídeo, um blog de autor. Essas pequenas doações não serão debitadas na hora. Funcionará mais como um botão de “like’ no site. No final do mês o leitor recebe uma conta com o valor e a lista de tudo que ele “curtiu”. Paga se quiser e quanto quiser. Essas doações vão direto para o autor do material em questão.
AF – Os integrantes do Mídia Ninja são na maioria jovens sem experiência, usando equipamento comum e tecnologia simples. Qualquer um pode fazer o que a Mídia Ninja faz? O que impede a mídia tradicional de botar jovens com câmeras nas ruas?

BT – A maioria é jovem, mas a falta de experiência é relativa. Muitos já trabalhavam com comunicação, tem mais familiaridade com redes e tecnologia do que a maioria dos jornalistas de carreira. E estão nas ruas há tempos, convivendo e articulando com os movimentos sociais. Conhecem bem o território onde estão. A tecnologia é relativamente simples. O principal é estar disponível e sem medo de dar a cara a tapa. Algo muito difícil de ser reproduzido pela mídia tradicional já que ela se pauta por cargos, cargas horárias, compromissos editoriais, interesses comerciais e um comprometimento de seus funcionários com o veículo cada vez menor.

AF – Ao se manifestarem, tomarem posições e serem presos, os repórteres da MN estão se tornando mais personagens que jornalistas?

BT – Tomar posição, expressar livremente e não vestir o manto da falsa imparcialidade é parte da nossa proposta jornalística. Há inclusive um relativo e intencional anonimato dos que produzem para a Mídia Ninja. Ser preso nunca foi nossa intenção… se estamos nos tornando personagens é porque a polícia, e a imprensa, está vendo a MN como uma pauta em si. Mas, insisto, nunca foi nosso plano. Estamos na rua para cobrir e passar a notícia. Não para ser a notícia.
AF – A Mídia Ninja é financiado em que medida pelo Fora do Eixo?

BT – A relação do Fora do Eixo com a Mídia Ninja é umbilical. Nasce dentro da rede do FdE, a partir de um acúmulo de experiências de comunicação que começaram junto com a própria rede. O FdE segue sendo a estrutura humana e física que mantém a MN funcionando e crescendo. O “financiamento” do FdE é, sobretudo a dedicação total, o investimento humano e a tecnologia social que viabiliza a organização e nossa cobertura. Os custos não mudam muito do que já era a despesa da própria estrutura do Fora do Eixo. A maioria das câmeras, telefones, computadores já estavam lá. E é o Fora do Eixo principalmente que ajuda a responder e organizar os novos colaboradores. São redes indissociáveis.
AF – O Fora do Eixo é parcialmente financiado pelo governo federal, assim como o Pós-TV, em que você tem um programa. A Mídia Ninja se considera independente?

BT – O Fora do Eixo é sustentado, essencialmente, por seus próprios recursos, vindos de centenas de festivais, eventos culturais e atividades produzidas pela rede em mais de 200 cidades do Brasil. E, sobretudo, por um caixa coletivo. Já que nenhum real se torna lucro ou salários pessoais, mas paga um sistema de compartilhamento, esse recurso rende muito mais do que o esperado.
Sim, há recursos públicos no Fora do Eixo. Todos editais, públicos e auditados, que qualquer indivíduo ou coletivo pode disputar. Isso não é “dinheiro do governo”, “dinheiro do PT”. Isso é política pública e se dá em nível federal, estadual e municipal, independente do partido. Nenhum desses editais foi direcionado para a Mídia Ninja. E sim, a Mídia Ninja se considera totalmente independente. Assim como a PósTV.
AF – Você é o idealizador da Mídia Ninja. Idealizou também o movimento Existe Amor em SP, que apoiou Fernando Haddad em São Paulo. Você é petista?

BT – Vamos lá. Eu sou UM DOS idealizadores da Mídia Ninja. E UM DOS idealizadores do Existe Amor em SP. Não, o Existe Amor em SP não apoiou Haddad. Nós defendíamos nas eleições uma mudança na visão de cidade proibida e careta da qual nos sentíamos reféns. E o direito de ocupar a rua, que havia sido criminalizada na gestão Serra-Kassab. A ideia do movimento é criar um contexto para os diferentes coletivos e ativistas de SP discutirem e pensarem em ações convergentes para, entre outras coisas, pressionar e influenciar a prefeitura.

Pessoalmente, votei no Haddad e fiz campanha para que fosse eleito. Também votei na Dilma, no Lula duas vezes. Assinei a ata de fundação da Rede Sustentabilidade da Marina Silva, faço parte de Rede Pense Livre, apadrinhada por FHC, acho o PSOL um partido cada vez mais interessante. E não, não sou petista, nem tucano, nem Marineiro… Não entendo a política como uma guerra de gangues.
AF – No Rio, os protestos influíram para queda de popularidade de Sérgio Cabral e viabilização da candidatura ao governo do estado do petista Lindbergh Farias. Você acha que a cobertura da Mídia Ninja contribuiu para isso?

BT – Eu acho que a cobertura da Mídia Ninja contribuiu para que mais pessoas soubessem do profundo sentimento de insatisfação do carioca em relação a Sérgio Cabral. Se isso beneficia Lindbergh, Garotinho, Crivela ou qualquer um não está, realmente, na nossa conta. Pessoalmente, não falo aqui em nome da todos da MN, acho que os cariocas estão em maus lençóis nas próximas eleições para governador.
AF – Alguns petistas no Twitter começam a fazer críticas à Mídia Ninja. A que você atribui isso?

BT – Depende da crítica. Se você se refere aos que acham que somos reacionários, tucanos disfarçados, atribuo ao tipo governismo tonto e paranóico que não faz mais nada a não ser tuitar. Um pessoal que acha que qualquer um que não diz amém a tudo que o PT faz é golpista, quinta coluna, etc. Nem perco meu tempo.
AF – O artigo sobre a MN na revista Piauí foi escrito por Ronaldo Bressane, seu colega na revista Trip. Você entende que o texto é imparcial?

BT – Bressane não é só ex-colega, mas um dos meus melhores amigos. Realmente, meio cabotino. Mas, amizade à parte, acho que o texto foi bem honesto.
AF – Você trabalha para a Rede Globo como roteirista do programa Esquenta. Vê alguma contradição entre este vínculo e seu trabalho com a Mídia Ninja?
BT – Não trabalho mais. Foi uma função que ocupei por menos de um ano, remotamente em São Paulo. E é bom que se diga: saí por total incompetência minha. Era uma equipe ótima, muito aberta a ideias. E nunca me cobraram ou questionaram meu envolvimento com a PosTV, Mídia Ninja ou com ativismo em SP. Eu que não consegui cumprir com as expectativas mínimas que depositaram em mim por estar absolutamente envolvido com os bastidores da Mídia Ninja, articulação do Existe Amor em SP. Lamento não trabalhar mais com Hermano, Ronaldo, Paula, Patrícia… turma boa. Mea culpa.

AF – Você acha que os manifestantes que gritam contra a Globo, e contra a presença de partidos nas manifestações, sabem da sua relação profissional com a Globo e da dependência financeira do Mídia Ninja de dinheiro do governo federal? Se houver reação negativa, como isso afeta o trabalho do MN na cobertura dos protestos?

BT – Acho que a pergunta está respondida anteriormente. Não trabalho mais para a Globo, muito menos a MN depende de dinheiro federal.
AF – A MN fará algo além do registro imediato dos protestos? Acabando os protestos, qual o papel do Mídia Ninja?

BT – Hoje estou mais dedicado em organizar uma rede de jornalistas e programadores do que cobrir a rua. A ideia é manter o plano sugerido antes dos protestos começarem. Montar uma rede de jornalismo independente, um site próprio, um sistema de financiamento direto do público e descobrir como vamos conseguir criar uma outra forma de produzir e distribuir informação. Agora… quem disse que os protestos vão acabar?
AF – Daqui um ano temos eleições. A Mídia Ninja vai apoiar candidatos? E você, pessoalmente?

BT – Não acredito que a Mídia Ninja vá apoiar candidatos. Não acho que pelo tamanho que rede terá, pela fauna ideológica que vamos juntar, seja possível apoiar alguém como veículo. Pessoalmente, por que não?

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