PESQUISADORES DESFAZEM O MITO DE GENEROSIDADE E ALTRUÍSMO EM TORNO DE MADRE TERESA

Do blog Sociedade Racionalista

PESQUISADORES DESFAZEM O MITO DE GENEROSIDADE E ALTRUÍSMO EM TORNO DE MADRE TERESA

24 DE MARÇO DE 2013   LUCIANA RIBEIRO DOS SANTOS
 

O mito de altruísmo e generosidade que envolve Madre Teresa foi desfeito em um paper de Serge Larivée e Genevieve Chenard, do Departamento de Psicoeducação da Universidade de Montreal e por Carole Sénéchal, da Faculdade de Educação da Universidade de Ottawa. O paper, que será publicado na pauta de março do periódico Estudos em Religião/ Ciências religiosas, é uma análise dos escritos publicados sobre Madre Teresa. Assim como o jornalista e autor Christopher Hitchens, amplamente citado em suas análises, os analistas concluem que sua imagem santificada – que não é sustentada pela análise dos fatos – foi construída, e que sua beatificação foi orquestrada por uma eficiente campanha de assessoria de imprensa.

“Enquanto procurávamos documentos sobre o fenômeno do altruísmo para um seminário de ética, um de nós deparou-se com a vida e o trabalho da mulher mais celebrada da igreja católica e agora parte da nossa imaginação coletiva – Madre Teresa – cujo nome real era Agnes Gonxha”, diz o professor Larivée, que liderou a pesquisa. “A descrição era tão extática que atiçou nossa curiosidade e nos levou a pesquisar mais a fundo.”

Como resultado disso, os três pesquisadores coletaram 502 documentos sobre a vida e o trabalho de Madre Teresa. Depois de eliminar 195 duplicatas, eles consultaram 287 documentos para conduzir sua análise, o que representa 96% da literatura sobre a fundadora da Ordem dos Missionários da Caridade (OMC). Fatos derrubam o mito de Madre Teresa.

Em seu artigo, Serge Larivée e seus colegas citam também uma série de problemas que não foram levados em conta pelo Vaticano durante o processo de beatificação de Madre Teresa, como “seu um tanto quanto duvidoso jeito de cuidar dos doentes, seus contatos políticos questionáveis, a administração suspeita das enormes quantias de dinheiro que ela recebeu e suas visões excessivamente dogmáticas em relação a, particularmente, aborto, contracepção e divórcio.”

Os doentes devem sofrer como Cristo na cruz

À época da sua morte, Madre Teresa havia aberto 517 missões que acolhiam os pobres e os doentes em mais de 100 países. As missões foram descritas como “casas para os moribundos” por médicos que visitaram diversos desses estabelecimentos em Calcutá. Dois terços das pessoas que iam a essas missões tinham esperança de encontrar um médico para tratá-las, enquanto um terço agonizava sem receber o cuidado apropriado. Os médicos encontraram uma significativa falta de higiene, condições impróprias, falta de cuidado de fato, comida inadequada e ausência de analgésicos. O problema não era falta de dinheiro – a Fundação criada por Madre Teresa arrecadou milhões de dólares – mas uma concepção um tanto peculiar de sofrimento e morte: “Há algo de belo em ver os pobres aceitarem sua sina, sofrer como na Paixão de Cristo. O mundo ganha muito com seu sofrimento”, foi a resposta dela a críticas, como cita o jornalista Christopher Hitchens. Não obstante, quando Madre Teresa solicitou cuidados paliativos, ela os recebeu em um moderno hospital americano.

Política questionável e contabilidade obscura

Madre Teresa era generosa com seus oradores, mas um tanto miserável com os milhões que iam à sua fundação no que tangia ao sofrimento humano. Durante numerosas enchentes na Índia ou após a explosão de uma fábrica de pesticidas em Bhopal, ela ofereceu muitas orações e medalhinhas da Virgem Maria, mas nenhuma ajuda direta ou financeira.  Por outro lado, ela não teve escrúpulos ao receber a Legião de Honra e uma doação do ditador haitiano Duvalier. Milhões de dólares foram transferidos para as diversas contas bancárias da OMC, mas a maioria das contas era mantida em segredo, diz Larivée. “Dada a administração parcimoniosa dos trabalhos de Madre Teresa, é de se perguntar para onde foram os milhões de dólares enviados para os pobres.”

O grande plano da mídia para a santidade

A despeito desses fatos perturbadores, como Madre Teresa conseguiu construir uma imagem de santidade e infinita bondade? De acordo com os três pesquisadores, um encontro que ela teve em 1968 com Malcom Muggeridge,  um jornalista antiaborto da BBC que compartilhava de seus valores de direita católica, foi crucial. Muggeridge decidiu promover Teresa, que consequentemente descobriu o poder da mídia de massa. Em 1969 ele fez um filme elogioso à missionária, promovendo-a ao atribuir-lhe o “primeiro milagre fotográfico”, quando ele deveria ter sido atribuído ao novo estoque de filmes comercializado pela Kodak. Mais tarde, Madre Teresa viajou o mundo e recebeu diversos prêmios, incluindo o Prêmio Nobel da Paz. No seu discurso de aceitação, falou sobre o assunto de mulheres bosnianas que haviam sido estupradas por sérvios e agora solicitavam o aborto: “eu sinto que o grande destruidor da paz hoje é o aborto, porque é uma guerra direta, uma matança direta – assassinato direto pela própria mãe.”

Após a sua morte, o Vaticano decidiu aguardar os usuais cinco anos para dar início ao processo de beatificação. O milagre atribuído a Madre Teresa foi a cura de uma mulher, Monica Besra, que vinha sofrendo de intensa dor abdominal. A mulher testemunhou ter sido curada depois que uma medalha abençoada por Madre Teresa foi posta em seu abdômen. Seus médicos pensavam diferente: o cisto no ovário e a tuberculose dos quais ela vinha sofrendo foram curados pelos medicamentos que eles haviam lhe dado. O Vaticano, ainda assim, concluiu que era um milagre. A popularidade de Madre Teresa era tamanha que ela tornou-se intocável para a população, que já a declarava santa. “O que poderia ser melhor do que a beatificação seguida de canonização deste modelo para revitalizar a Igreja e inspirar os fiéis, especialmente em uma época em que as igrejas estavam vazias e a autoridade romana em declínio?” Larivée e seus colegas questionam.

Efeito positivo do mito de Madre Teresa

Apesar da forma duvidosa de cuidar dos doentes ao glorificar seu sofrimento ao invés de aliviá-lo, Serge Larivée e seus colegas apontam para um efeito positivo do mito de Madre Teresa: “Se a extraordinária imagem de Madre Teresa transmitida ao imaginário coletivo encorajou iniciativas humanitárias que são genuinamente comprometidas com aqueles atingidos pela pobreza, nós só temos a celebrar. É provável que ela tenha inspirado muitos trabalhadores humanitários cujas ações verdadeiramente aliviaram o sofrimento dos destituídos e se voltaram às causas da pobreza e isolamento sem terem sido exaltados pela mídia. Ainda assim, a cobertura midiática de Madre Teresa poderia ter sido um pouco mais rigorosa.”

Mais informações: A versão impressa, disponível apenas em francês, será publicada em março de 2013 na pauta 42 de Estudos da Religião / Sciences religieuses. Pela Universidade de Montreal

Este texto é uma tradução de Researchers dispell the myth of altruism and generosity surrounding Mother Teresa , em Phys.org

Matéria original: http://phys.org/news/2013-03-dispell-myth-altruism-generosity-mother.html#jCp

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